Marcamos o tempo porque,
certamente, ele nos tem marcado através dos séculos. E não falo isso como uma
verdade dada e absoluta; falo como uma verdade minha. Uma verdade observável.
Mas não seria isso mesmo?
Nascemos e, lá está: tudo virou um momentum
— o momento do nosso nascimento — e toda a vida até a morte, um outro momento
marcado no tempo. E entre esses, uma centena de eventos marcantes fica
registrada em fotos, diários, vídeos, na memória, contados de um para o outro…
O último dia do mês de dezembro
chegou para mim com um aspecto numinoso, poético, mas tudo intencional da parte
do tempo. Tudo feito para me tocar; é o jeito dele de mudar as pessoas e as
coisas. E eu realmente me empolgo em começar os mesmos ciclos e ter aquela
ideia conveniente da segunda chance. Que delícia escorregar pelo tempo: os
ventos sopram em nosso rosto e, desconhecendo o fim dessa viagem, apenas
desfrutamos seus benefícios e nos desviamos do ônus do seu trabalho.
Ah! Olho-me no espelho — nada
corresponde. Estou mais cansado do que imagino, menos belo do que enxergo, mais
velho do que esses dezessete anos que nunca completam dezoito. E daí tenho
vergonha, mas ei-lo lá, com uma expressão que diz: estou aqui, meu caro,
esperando… quando quiser.
Estou fugindo da obrigatoriedade de
mudar.
O tempo, paciente, balança a cabeça
de um lado para o outro, num gesto de negação misturado com decepção. E isso me
deixa mal, meio nauseado. Ele deixou de me dar lições de moral; seus agentes
estão mais sofisticados, mais filosóficos, existencialistas, razoáveis e, por
vezes — o que me encanta —, muito espiritualistas.
Percebo que o espelho é importante;
quero me cercar deles. Chega dessas moscas zumbindo no meu ouvido a mesma
canção que já conheço de cor. É muito mais belo o que vem depois, mesmo que só
se perceba depois desse depois.
Já não sou mais o garoto de rosto
liso, pelugem de bigode, que trocara cartinhas com uma adolescente que desejava
mais atitude. A violência foi domesticada e a tolice podada.
Vejo amigos e nos disfarçamos,
fingimos que um dia fomos aprendizes trapalhões do tempo e da vida. Um deles
diz: “Tempo e vida não dão no mesmo?”
Todos se olham. Ninguém consegue responder, mas parece óbvio que não. Todavia,
é mais conveniente calar.
Todos têm filhos, e é tão divertido
vê-los. As dores calmas que sentimos denunciam que estamos sendo vitimados bem
devagar.
Calma, tempo!
Preciso me desculpar. Tenho uma
lista enorme. Antes, perdoo a mim mesmo e percebo que não preciso correr atrás
de desculpas.
Peço perdão ao Altíssimo: fui perdoado; há
paz.
Já posso olhar nos olhos dos meus
amigos, de estranhos — estou pacificado da culpa. O mundo é muito grande para
carregá-lo nas costas, Jude. Já chega.
Se amanhã for o dia primeiro de
janeiro, então será como se nada disso tivesse acontecido — quero dizer,
daquilo, da história que passou.
Uma amiga, cheia de filhos, cheia
de vida, cheia de sorriso — como pode? — fala perto de mim as reminiscências
“daquele tempo”… É como um filme que ambos assistimos; e daí chegam outros que
também viram o mesmo filme, mas perderam algumas partes. Riem do que descobrem,
contam o que acharam, depois vão para casa.
Tudo isso na fração de um
pensamento, como uma névoa que passa no céu escuro de uma noite calma. É
agradável e passageiro. Por isso ansiamos pelo dia. Ansiamos pelo primeiro dia
de janeiro: são pensamentos novos, recém-pensados, que queremos; tanta pauta
quanto nos quiser dar Deus.
Por isso, boa noite, minha cidade.
Aqui já é alta madrugada.
Dezembro, 31. 2025

