segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Guardai-vos da avareza

 


Há uma parábola, dentre tantas que o Mestre Jesus nos conta, que nos convida a uma reflexão profunda sobre os anseios do nosso coração. Em Lucas 12:16, Ele nos apresenta a história de um homem que acumulou tamanhas riquezas que já não tinha onde armazená-las. Esse homem decidiu, então, derrubar seus celeiros para construir outros maiores, onde pudesse guardar tudo o que havia conquistado e, por fim, desfrutar dos prazeres que seu esforço lhe proporcionara.

À primeira vista, é evidente que o Senhor nos ensina, por meio desse texto sagrado, que é inútil correr atrás da vida para ajuntar riquezas e não acumular aquilo que é mais precioso: um tesouro em Deus. Surge, então, a pergunta: o que significa ser rico para com Deus? Percebo que ser rico para com Deus é cultivar em si o que é valioso para Ele: uma alma piedosa, um amor genuíno, verdadeiro e sem hipocrisia, uma fé inabalável em Seu poder e em Sua Palavra… Há tantos tesouros diante de Deus! Menciono apenas alguns, pois muitos se encontram pobres justamente nessas áreas. Há quem viva confortável em suas riquezas materiais, mas com as bolsas celestes vazias — e sem qualquer preocupação em adquirir para si tais riquezas eternas.

Há também, infelizmente, aqueles que construíram uma existência baseada em valores pessoais e ideologias convenientes. Dizem consigo mesmos: “Que farei? Aproveitarei a vida como se não houvesse amanhã; já sofri, já trabalhei, já me dediquei. Agora só quero me divertir, festejar, brincar, estar com amigos.” Esses estão tão cheios da liberdade da autossatisfação que não se preocupam em assegurar para si um futuro perene nos campos abundantes das moradas celestes. Eis o perigo das riquezas: elas nos dão a sensação ilusória de que tudo está bem, de que não há mais trabalho a realizar nem batalhas a travar, e de que toda preocupação pode ser abafada pelo luxo do prazer.

Por isso, nos versículos seguintes (22–34), Jesus nos oferece um sermão claro e direto sobre as inquietações que temos quanto ao que comer e vestir. Temos tanto medo de não possuir recursos suficientes para sustentar nossas vaidades que não percebemos onde está, de fato, o nosso coração. Não percebemos que não estamos vivendo no Reino, pois nossos olhos permanecem presos à terra. Esse é um problema sério e presente em todas as gerações: uma batalha constante entre espírito e carne; entre amar as coisas deste mundo ou buscar as que são do alto; entre querer ser independente para tomar nossas próprias decisões ou declarar, com sinceridade: “Já não vivo eu, mas Cristo vive em mim.”

Os homens estão absortos em seus próprios desejos — um buraco negro que consome vidas e arrasta destinos para o abismo. Criam expectativas e se apoiam em suas posses e em relacionamentos superficiais; mas, tão logo esses castelos de areia começam a ruir, eles desmoronam junto com eles. Somente quando a luz reveladora da graça e da verdadeira riqueza alcançar nossos corações e mentes, as sombras dessas ilusões poderão ser dissipadas. Essa luz está no evangelho das boas-novas de salvação em Cristo. E é nossa missão apresentar essas verdades — e, acima de tudo, vivê-las.


Herick L. A. Santos 

Dos destinos possíveis

 

            É manhã de segunda-feira na repartição. Após cruzar a cidade inteira cortando o vento frio com meu rosto magro, sirvo-me de um pouco de café, como de costume, e me assento de frente ao computador. A mesa está agradavelmente arrumada; vejo, por cima do monitor, o vidro que divide o escritório das dependências lá fora, formando uma tela gigante. Eu assisto por um instante esse filme mudo e singelo das árvores pintadas de sol, dançando sob a ordem dos ventos, até que homens de obra chegam ávidos pelos seus materiais em meu almoxarifado, e eu acordo do meu breve devaneio, balançando a cabeça como um cachorro que se livra da água no pelo. E logo, qualquer encanto matinal e mágico some pela urgência do trabalho.

            Não tem sido assim com todos os homens de ofício? Não foi esse o trauma pelo qual todos nós, varões em tempos áureos, quando todo ímpeto de vida subjetiva brotava, fomos cortados pela máquina da vida social e do trabalho? Eu reparei que sim. Fomos feitos para esse fim. Para esse fim foi que fomos desligados de nossas mães. Assim entramos em um mundo todo novo de desafios e dores que nos fazem homens, dores das quais nos orgulhamos e para as quais nos encorajamos mutuamente.

            O movimento não está lá aquelas coisas. Alguns deles se aglomeram e passam a debater assuntos diversos. Paro por um instante de escrever para participar da prosa. Os temas vão desde a construção civil à falha no imposto de renda que levou à prisão de Al Capone, passando pelos atos de violência televisionados e pela insuficiente administração política de nosso país. É breve. Eu olho e eles já se foram. Foram-se os anos, os homens, os assuntos.

            Debruço-me novamente sobre o computador e retomo a tarefa que interrompi, mas agora não me lembro se foi hoje cedo ou há uma década que eu discorria sobre coisas da alma... Essas coisas geram temas para uma vida inteira. Eu me pergunto se ainda posso fazer isso, mas percebo que já estou empenhado em tal dever.

            Luto contra destinos possíveis. O que poderia ser se tomasse essa direção hoje? Ou dissesse essa palavra ao invés daquela? Se não fosse tão complacente em alguns casos? Tão ríspido em outros? Se tivesse feito aquele investimento... Ah, os destinos possíveis! O nome que dei à minha filha poderia ser outro? Curiosamente, seu nome forma uma estrela; não previ isso. E aí que está: em todo caso, as consequências parecem estar fortemente concatenadas com outros ramos diretos de possiblidades para um sem-fim de destinos.

            É extasiante saber que Deus conhece todos esses possíveis traços... E então reclino-me na poltrona com o sentimento pacato de estar em dia com meu trabalho e sem medo da direção que toma o meu destino. Sinto a alegria que se tem quando se pega a linha do outro lado da agulha, o orgulho de fazer um fogo vingar numa noite fria a céu aberto em um lugar qualquer, onde não há o barulho da máquina pública, nem dos assuntos dos homens; apenas a história do tempo sendo escrita à luz das estrelas. Sem dúvida, um sentimento peculiar e raro para uma segunda-feira.

 

Herick L. A. Santos

Outubro, 2025.

Sopro

  Marcamos o tempo porque, certamente, ele nos tem marcado através dos séculos. E não falo isso como uma verdade dada e absoluta; falo como ...