segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Sopro

 


Marcamos o tempo porque, certamente, ele nos tem marcado através dos séculos. E não falo isso como uma verdade dada e absoluta; falo como uma verdade minha. Uma verdade observável.

 Mas não seria isso mesmo?

 Nascemos e, lá está: tudo virou um momentum — o momento do nosso nascimento — e toda a vida até a morte, um outro momento marcado no tempo. E entre esses, uma centena de eventos marcantes fica registrada em fotos, diários, vídeos, na memória, contados de um para o outro…

O último dia do mês de dezembro chegou para mim com um aspecto numinoso, poético, mas tudo intencional da parte do tempo. Tudo feito para me tocar; é o jeito dele de mudar as pessoas e as coisas. E eu realmente me empolgo em começar os mesmos ciclos e ter aquela ideia conveniente da segunda chance. Que delícia escorregar pelo tempo: os ventos sopram em nosso rosto e, desconhecendo o fim dessa viagem, apenas desfrutamos seus benefícios e nos desviamos do ônus do seu trabalho.

Ah! Olho-me no espelho — nada corresponde. Estou mais cansado do que imagino, menos belo do que enxergo, mais velho do que esses dezessete anos que nunca completam dezoito. E daí tenho vergonha, mas ei-lo lá, com uma expressão que diz: estou aqui, meu caro, esperando… quando quiser.

Estou fugindo da obrigatoriedade de mudar.

O tempo, paciente, balança a cabeça de um lado para o outro, num gesto de negação misturado com decepção. E isso me deixa mal, meio nauseado. Ele deixou de me dar lições de moral; seus agentes estão mais sofisticados, mais filosóficos, existencialistas, razoáveis e, por vezes — o que me encanta —, muito espiritualistas.

Percebo que o espelho é importante; quero me cercar deles. Chega dessas moscas zumbindo no meu ouvido a mesma canção que já conheço de cor. É muito mais belo o que vem depois, mesmo que só se perceba depois desse depois.

Já não sou mais o garoto de rosto liso, pelugem de bigode, que trocara cartinhas com uma adolescente que desejava mais atitude. A violência foi domesticada e a tolice podada.

Vejo amigos e nos disfarçamos, fingimos que um dia fomos aprendizes trapalhões do tempo e da vida. Um deles diz: “Tempo e vida não dão no mesmo?”
Todos se olham. Ninguém consegue responder, mas parece óbvio que não. Todavia, é mais conveniente calar.

Todos têm filhos, e é tão divertido vê-los. As dores calmas que sentimos denunciam que estamos sendo vitimados bem devagar.

Calma, tempo!

Preciso me desculpar. Tenho uma lista enorme. Antes, perdoo a mim mesmo e percebo que não preciso correr atrás de desculpas.

 Peço perdão ao Altíssimo: fui perdoado; há paz.

Já posso olhar nos olhos dos meus amigos, de estranhos — estou pacificado da culpa. O mundo é muito grande para carregá-lo nas costas, Jude. Já chega.

Se amanhã for o dia primeiro de janeiro, então será como se nada disso tivesse acontecido — quero dizer, daquilo, da história que passou.

Uma amiga, cheia de filhos, cheia de vida, cheia de sorriso — como pode? — fala perto de mim as reminiscências “daquele tempo”… É como um filme que ambos assistimos; e daí chegam outros que também viram o mesmo filme, mas perderam algumas partes. Riem do que descobrem, contam o que acharam, depois vão para casa.

Tudo isso na fração de um pensamento, como uma névoa que passa no céu escuro de uma noite calma. É agradável e passageiro. Por isso ansiamos pelo dia. Ansiamos pelo primeiro dia de janeiro: são pensamentos novos, recém-pensados, que queremos; tanta pauta quanto nos quiser dar Deus.

Por isso, boa noite, minha cidade. Aqui já é alta madrugada.

Dezembro, 31. 2025

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