O mundo está em chamas — como posso
tocá-lo?
Olho em minha volta e as pessoas caminham tranquilas, mas de seus cabelos e
roupas flamejam labaredas de fogo que, como bandeiras hasteadas, balançam no
fim da tarde. O caminho está limpo, embora aqui e ali poças de lava se formem.
Estranho tudo, mas aceito; continuo
a caminhar.
Encontro um conhecido. Sorridente,
estende-me a mão para que eu a cumprimente. Parece desconhecer seu estado;
apenas me reconhece e ri. Naturalmente, esse mundo lhe parece normal do jeito
que está. Apenas eu estou ali, sóbrio das chamas. Quem sabe, ao apertar sua
mão, eu cesse de ser esse estranho sem calor e seja contaminado por esse
sentimento ígneo que a todos inflama?
Aperto
sua mão.
Um aperto caloroso.
Ele se vai. Nada acontece. Continuo o mesmo.
A mão queima. Tudo parece arder.
Não posso me recostar nessas paredes — de longe pareciam ouro; agora que me
aproximo, são brasas: blocos inteiros em vermelho-alaranjado, crepitando
intensamente.
Paro defronte a uma igreja, e lá
está o pastor em chamas. Ele fala, e sua fala se mistura ao som do vento no
fogo — não o apaga, apenas o alimenta. Vejo os que o ouvem; ninguém se
distingue: perigosos e quentes. Aproximo-me do locutor; ele parece se agigantar
à medida do meu passo. Fico a meia distância. Volto, corro, e antes mesmo de
saber para onde, começo a pensar se tenho casa.
Estou fazendo o caminho de casa.
Uma casa no meio de outras centenas
de casas contíguas. Ela não está em chamas. Entro, mas inquieto ando de um lado
para o outro. Deve ser alucinação. Olho novamente pela janela: as coisas estão
lá, na calma habitual de um mundo em chamas que está em paz consigo mesmo. Mas
não eu. Preciso tomar uma atitude.
Arrasto para fora uma mangueira de
jardim, ligo a torneira, e uma água fresquinha começa a jorrar com grande
pressão. Sinto-me bem e sorrio para o brilho translúcido da água ondulando,
saindo agitadamente. Começo a andar, e ela parece me seguir. Quantos metros
tem? Cinquenta metros? Andei mais que isso, mas ela esgota sua extensão.
Penso.
Preciso apagar as chamas. O mundo
não me é favorável assim. Atiro água nos muros, nos transeuntes, nos cães, em
alguns homens conhecidos. Preciso apagá-los. Preciso torná-los normais — meus
normais. Não é esse o mundo que quero.
Desfiro água por onde passo; a
mangueira agora parece ser uma extensão de mim. Passo novamente pela igreja e
lhes dou da mesma água pacificadora. Os blocos das paredes retomam o tom cinza
da pedra que tinham, embora ainda fumegantes. Ninguém parece notar a diferença.
Então está tudo bem. Posso voltar a
estar no mundo.
Aquelas mãos quentes, gigantes,
assustadoras agora são mãos simples, pequenas, carnais — humanas como a minha.
Posso saudá-las em paz. Posso até subestimá-las. É preciso tirar-lhes o poder.
Abrir a porta do guarda-roupa à
noite, ou visitar o cômodo escuro e distante da casa; gritar para o monstro, ou
simplesmente acender a luz — e então descobrir um gatinho mexendo nas caixas,
um besouro batendo na janela; ou acordar ofegante, mas aliviado por tudo ter
sido apenas um sonho.
Dezembro, 2025.

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