segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Brasas vivas

 

O mundo está em chamas — como posso tocá-lo?
Olho em minha volta e as pessoas caminham tranquilas, mas de seus cabelos e roupas flamejam labaredas de fogo que, como bandeiras hasteadas, balançam no fim da tarde. O caminho está limpo, embora aqui e ali poças de lava se formem.

Estranho tudo, mas aceito; continuo a caminhar.

Encontro um conhecido. Sorridente, estende-me a mão para que eu a cumprimente. Parece desconhecer seu estado; apenas me reconhece e ri. Naturalmente, esse mundo lhe parece normal do jeito que está. Apenas eu estou ali, sóbrio das chamas. Quem sabe, ao apertar sua mão, eu cesse de ser esse estranho sem calor e seja contaminado por esse sentimento ígneo que a todos inflama?

Aperto sua mão.
Um aperto caloroso.
Ele se vai. Nada acontece. Continuo o mesmo.

A mão queima. Tudo parece arder. Não posso me recostar nessas paredes — de longe pareciam ouro; agora que me aproximo, são brasas: blocos inteiros em vermelho-alaranjado, crepitando intensamente.

Paro defronte a uma igreja, e lá está o pastor em chamas. Ele fala, e sua fala se mistura ao som do vento no fogo — não o apaga, apenas o alimenta. Vejo os que o ouvem; ninguém se distingue: perigosos e quentes. Aproximo-me do locutor; ele parece se agigantar à medida do meu passo. Fico a meia distância. Volto, corro, e antes mesmo de saber para onde, começo a pensar se tenho casa.

Estou fazendo o caminho de casa.

Uma casa no meio de outras centenas de casas contíguas. Ela não está em chamas. Entro, mas inquieto ando de um lado para o outro. Deve ser alucinação. Olho novamente pela janela: as coisas estão lá, na calma habitual de um mundo em chamas que está em paz consigo mesmo. Mas não eu. Preciso tomar uma atitude.

Arrasto para fora uma mangueira de jardim, ligo a torneira, e uma água fresquinha começa a jorrar com grande pressão. Sinto-me bem e sorrio para o brilho translúcido da água ondulando, saindo agitadamente. Começo a andar, e ela parece me seguir. Quantos metros tem? Cinquenta metros? Andei mais que isso, mas ela esgota sua extensão.

Penso.

Preciso apagar as chamas. O mundo não me é favorável assim. Atiro água nos muros, nos transeuntes, nos cães, em alguns homens conhecidos. Preciso apagá-los. Preciso torná-los normais — meus normais. Não é esse o mundo que quero.

Desfiro água por onde passo; a mangueira agora parece ser uma extensão de mim. Passo novamente pela igreja e lhes dou da mesma água pacificadora. Os blocos das paredes retomam o tom cinza da pedra que tinham, embora ainda fumegantes. Ninguém parece notar a diferença.

Então está tudo bem. Posso voltar a estar no mundo.

Aquelas mãos quentes, gigantes, assustadoras agora são mãos simples, pequenas, carnais — humanas como a minha. Posso saudá-las em paz. Posso até subestimá-las. É preciso tirar-lhes o poder.

Abrir a porta do guarda-roupa à noite, ou visitar o cômodo escuro e distante da casa; gritar para o monstro, ou simplesmente acender a luz — e então descobrir um gatinho mexendo nas caixas, um besouro batendo na janela; ou acordar ofegante, mas aliviado por tudo ter sido apenas um sonho.



Dezembro, 2025.

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