segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Dos destinos possíveis

 

            É manhã de segunda-feira na repartição. Após cruzar a cidade inteira cortando o vento frio com meu rosto magro, sirvo-me de um pouco de café, como de costume, e me assento de frente ao computador. A mesa está agradavelmente arrumada; vejo, por cima do monitor, o vidro que divide o escritório das dependências lá fora, formando uma tela gigante. Eu assisto por um instante esse filme mudo e singelo das árvores pintadas de sol, dançando sob a ordem dos ventos, até que homens de obra chegam ávidos pelos seus materiais em meu almoxarifado, e eu acordo do meu breve devaneio, balançando a cabeça como um cachorro que se livra da água no pelo. E logo, qualquer encanto matinal e mágico some pela urgência do trabalho.

            Não tem sido assim com todos os homens de ofício? Não foi esse o trauma pelo qual todos nós, varões em tempos áureos, quando todo ímpeto de vida subjetiva brotava, fomos cortados pela máquina da vida social e do trabalho? Eu reparei que sim. Fomos feitos para esse fim. Para esse fim foi que fomos desligados de nossas mães. Assim entramos em um mundo todo novo de desafios e dores que nos fazem homens, dores das quais nos orgulhamos e para as quais nos encorajamos mutuamente.

            O movimento não está lá aquelas coisas. Alguns deles se aglomeram e passam a debater assuntos diversos. Paro por um instante de escrever para participar da prosa. Os temas vão desde a construção civil à falha no imposto de renda que levou à prisão de Al Capone, passando pelos atos de violência televisionados e pela insuficiente administração política de nosso país. É breve. Eu olho e eles já se foram. Foram-se os anos, os homens, os assuntos.

            Debruço-me novamente sobre o computador e retomo a tarefa que interrompi, mas agora não me lembro se foi hoje cedo ou há uma década que eu discorria sobre coisas da alma... Essas coisas geram temas para uma vida inteira. Eu me pergunto se ainda posso fazer isso, mas percebo que já estou empenhado em tal dever.

            Luto contra destinos possíveis. O que poderia ser se tomasse essa direção hoje? Ou dissesse essa palavra ao invés daquela? Se não fosse tão complacente em alguns casos? Tão ríspido em outros? Se tivesse feito aquele investimento... Ah, os destinos possíveis! O nome que dei à minha filha poderia ser outro? Curiosamente, seu nome forma uma estrela; não previ isso. E aí que está: em todo caso, as consequências parecem estar fortemente concatenadas com outros ramos diretos de possiblidades para um sem-fim de destinos.

            É extasiante saber que Deus conhece todos esses possíveis traços... E então reclino-me na poltrona com o sentimento pacato de estar em dia com meu trabalho e sem medo da direção que toma o meu destino. Sinto a alegria que se tem quando se pega a linha do outro lado da agulha, o orgulho de fazer um fogo vingar numa noite fria a céu aberto em um lugar qualquer, onde não há o barulho da máquina pública, nem dos assuntos dos homens; apenas a história do tempo sendo escrita à luz das estrelas. Sem dúvida, um sentimento peculiar e raro para uma segunda-feira.

 

Herick L. A. Santos

Outubro, 2025.

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