É
manhã de segunda-feira na repartição. Após cruzar a cidade inteira cortando o
vento frio com meu rosto magro, sirvo-me de um pouco de café, como de costume,
e me assento de frente ao computador. A mesa está agradavelmente arrumada;
vejo, por cima do monitor, o vidro que divide o escritório das dependências lá
fora, formando uma tela gigante. Eu assisto por um instante esse filme mudo e
singelo das árvores pintadas de sol, dançando sob a ordem dos ventos, até que
homens de obra chegam ávidos pelos seus materiais em meu almoxarifado, e eu
acordo do meu breve devaneio, balançando a cabeça como um cachorro que se livra
da água no pelo. E logo, qualquer encanto matinal e mágico some pela urgência
do trabalho.
Não
tem sido assim com todos os homens de ofício? Não foi esse o trauma pelo qual
todos nós, varões em tempos áureos, quando todo ímpeto de vida subjetiva
brotava, fomos cortados pela máquina da vida social e do trabalho? Eu reparei
que sim. Fomos feitos para esse fim. Para esse fim foi que fomos desligados de
nossas mães. Assim entramos em um mundo todo novo de desafios e dores que nos
fazem homens, dores das quais nos orgulhamos e para as quais nos encorajamos
mutuamente.
O
movimento não está lá aquelas coisas. Alguns deles se aglomeram e passam a
debater assuntos diversos. Paro por um instante de escrever para participar da
prosa. Os temas vão desde a construção civil à falha no imposto de renda que
levou à prisão de Al Capone, passando pelos atos de violência televisionados e
pela insuficiente administração política de nosso país. É breve. Eu olho e eles
já se foram. Foram-se os anos, os homens, os assuntos.
Debruço-me
novamente sobre o computador e retomo a tarefa que interrompi, mas agora não me
lembro se foi hoje cedo ou há uma década que eu discorria sobre coisas da
alma... Essas coisas geram temas para uma vida inteira. Eu me pergunto se ainda
posso fazer isso, mas percebo que já estou empenhado em tal dever.
Luto
contra destinos possíveis. O que poderia ser se tomasse essa direção hoje? Ou
dissesse essa palavra ao invés daquela? Se não fosse tão complacente em alguns
casos? Tão ríspido em outros? Se tivesse feito aquele investimento... Ah, os
destinos possíveis! O nome que dei à minha filha poderia ser outro?
Curiosamente, seu nome forma uma estrela; não previ isso. E aí que está: em
todo caso, as consequências parecem estar fortemente concatenadas com outros
ramos diretos de possiblidades para um sem-fim de destinos.
É
extasiante saber que Deus conhece todos esses possíveis traços... E então
reclino-me na poltrona com o sentimento pacato de estar em dia com meu trabalho
e sem medo da direção que toma o meu destino. Sinto a alegria que se tem quando
se pega a linha do outro lado da agulha, o orgulho de fazer um fogo vingar numa
noite fria a céu aberto em um lugar qualquer, onde não há o barulho da máquina
pública, nem dos assuntos dos homens; apenas a história do tempo sendo escrita
à luz das estrelas. Sem dúvida, um sentimento peculiar e raro para uma
segunda-feira.
Herick L. A. Santos
Outubro, 2025.
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